Vencedor do 13º Festival de Poesia

O jornalista e analista judiciário João Georgio Ninos (Jota Ninos) foi o grande vencedor do 13º Festival de Poesia na noite de ontem (17).

O resultado foi divulgado no palco do 3º Salão do Livro e o autor da melhor poesia recebeu da prefeita de Santarém, Maria do Carmo o prêmio no valor de mil reais.

Abaixo segue a poesia vitoriosa, que segundo Jota, traduz o sentimento poético absorvido durante os sete anos que trabalha na organização dos tribunais do júri em Santarém. A poesia é toda escrita em letra miníscula, propositalmente.

apenados

a pena do juiz
que dança sobre a lisa superfície,
– pálida de medo –
é a mesma pena do condenado
cuja nódoa de sangue derramado
de um ser inanimado,
transmuta-se em toner de impressão,
transforma-se em artigos e jurisprudências.

a pena do juiz
que se esparrama sobre a plácida pista branca,
como que patinando no gelo da justiça,
é a mesma pena das mães em prantos
pelo filho que morreu
e pelo que vai viver
encarcerado…

a pena do juiz
não é feita de maiúsculas fontes
nem de hiatos e hipérboles
é a síntese da antítese de uma tese
não é poesia, nem prosa
não é feita de versos ou reversos
é apenas palavra após palavra
mas carrega a semântica
de um fim em si mesmo

a pena do juiz pode ser, ou não,
o reflexo de mentes abstratas,
semblantes cansados
de homens e mulheres do povo
no tribunal da consciência.

– a dona de casa lavou a roupa suja e pendurou sua conformação no varal, como sempre fez;

– o bancário somou os prós e contra e assinou em branco o cheque da razão;

– o estudante de biologia não se fascinou pelo direito e ainda prefere estudar o trypanossoma cruzis;

– a comerciária não vendeu a alma
e nem perdeu a calma ao rabiscar seu talonário;

– o gari não jogou sujeira pra baixo do tapete
e separou o joio da jóia;

– a assessora do político esqueceu o discurso demagogo e se fez cidadania;

– a professora deu a aula que ainda não havia dado e nem pensou no salário atrasado com gosto de giz.

na plateia, submersos em sono,
olhos esbugalhados têm sede de justiça
cada qual tem uma justiça
esquadrinhada no rosto
cada qual tem sua justiça
que é a mais perfeita de todos
cada qual tem sua verdade
que nem sempre é a do juiz ou do condenado
cada qual tem uma palavra a dizer
ou uma lágrima a chorar
cada qual é parte de um turbilhão
que não cabe no plenário

a pena do juiz
não contempla todas as justiças possíveis
a justiça dos advogados, dos promotores,
dos infratores, dos inocentes, dos indecentes, dos marginalizados, dos doentes, dos alienados

mas quem tem pena do juiz
que em seu ato solitário
há de converter seu relicário
em um ato feliz ou infeliz?
talvez ele mesmo não saiba
a dimensão de sua pena…

somos todos apenados
de uma forma ou de outra…

a pena do juiz não tem pena nem alento
não tem remorso, nem contentamento
a pena do juiz é fria, como a letra da lei
e se ajusta à flácida planície branca
trilhando levemente microporos
e sulcos invisíveis de uma folha em branco
onde nódoas de sangue
transformadas em toner de impressão
se formatam em verdade impune:
a lei é de todos para todos!
a lei é de poucos para nenhum!

Jota Ninos

ASCOM 3º Salão do Livro

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